Música, educação e afins

Música é um fenômeno social, que pode nos aproximar de determinadas pessoas e nos afastar de outras. Isto porque usamos música para compartilhar sensações e emoções, para transmitir valores e ideais com os quais nos identificamos. Deste modo, nem sempre é gratuito gostar (ou não) de determinada música, estilo, ou gênero musical; nosso gosto musical por muitas vezes tem origem, direta ou indiretamente, consciente ou inconscientemente, nas relações sociais que estabelecemos (ou que os outros estabelecem conosco).

Fessora uma ova! É fessOr!


Não há um dia sequer em que pelo menos um aluno, por força do hábito, não me chame de "fessora...", como também não há um sequer destes lapsos que eu não responda prontamente em tom sério e irônico "Fessora uma ova! É fessor!". Os alunos se divertem tanto com o meu bom humor em lidar com a situação quanto com sua própria falta de controle sobre esta força do hábito. Não pra menos, afinal "a atividade docente [...] é uma ocupação predominantemente feminina" (BRUSCHINI e AMADO, 1988).

Às quintas-feiras leciono música na Escola Municipal de Acuruí, na zona rural de Itabirito-MG. E uma de minhas alunas do 1º ano do ensino fundamental ainda insiste em me chamar de "motorista". O que é hilário, mas perfeitamente compreensível. Afinal, o motorista do escolar era a única referência masculina que ela tinha até então neste ambiente predominantemente coordenado por mulheres professoras, cozinheiras e serventes.

Estas situações, pra mim divertidas, me fizeram também refletir sobre a minha condição de professor homem de crianças em escolas de ensino regular. E por mais argumentos que me sejam apresentados sobre o fato da predominância feminina nesta área ser uma situação culturalmente instituída, fruto da discriminação e da segregação da mulher, não consigo tirar da cabeça que quanto mais tenra a idade dos alunos mais vantagens a mulher tem sobre o homem na gestão de uma turma.

O ser humano é um animal, um mamífero, cuja relação de dependência fisiológica e também afetiva da prole com a fêmea estende-se por muito tempo além do parto. Por consequência, o desenvolvimento emocional e social das crianças sempre foi, em maior parte, função atribuída à mulher. Assim, para a predominância feminina no magistério ainda nos dias de hoje, o argumento "mulher leva mais jeito com crianças" não deveria ser tachado como machista. É apenas óbvio de um ponto de vista antropológico.

Guerra dos sexos à parte, homens e mulheres não são apenas fisiologicamente diferentes. Sem dúvidas a evolução da espécie conferiu a cada gênero diferentes habilidades cognitivas, adequadas às funções que normalmente exerceram ao longo da história. Não significa dizer apenas que um gênero é mais inteligente que outro nisso ou naquilo, mas reconhecer que ambos são potencialmente capazes de chegar aos mesmos resultados, porém por caminhos cognitivos diferentes.

Com isso em mente, lanço no ar a seguinte pergunta: que vantagens e desvantagens o homem costuma ter em relação à mulher no ofício de professor de crianças no ensino básico?

BRUSCHINI, Cristina e AMADO, Tina. Estudos sobre mulher e educação: algumas questões sobre o magistério. In: Cadernos de Pesquisa, nº 64, São Paulo, p.4-13, fev/1988.

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