Música, educação e afins

Música é um fenômeno social, que pode nos aproximar de determinadas pessoas e nos afastar de outras. Isto porque usamos música para compartilhar sensações e emoções, para transmitir valores e ideais com os quais nos identificamos. Deste modo, nem sempre é gratuito gostar (ou não) de determinada música, estilo, ou gênero musical; nosso gosto musical por muitas vezes tem origem, direta ou indiretamente, consciente ou inconscientemente, nas relações sociais que estabelecemos (ou que os outros estabelecem conosco).

Saber tocar mais de um instrumento, por quê?


Por que aprender a tocar mais de um instrumento se há tanto para aprender com um apenas? Por que gastar tempo com um instrumento novo, "do zero", se você ainda não for "bom o bastante" no instrumento que você já toca? Vou começar comentando esta última expressão entre aspas. Ser "bom o bastante" é, além de subjetivo, muito pessoal (ou ao menos deveria ser!). Bom o bastante para quê? Bom o bastante para 'quem'? Se você é músico, seu interesse em tocar um instrumento musical é fazer música ou conquistar com ela um determinado status social (ou profissional)? Não sejamos hipócritas: as duas coisas, é claro! Mas seja sincero consigo mesmo: qual das duas pesa mais pra você?

Se o seu objetivo for status profissional como instrumentista, especialista em um determinado instrumento, a pergunta que você deveria fazer então é: devo ser bom o bastante para "quem"? Para quem você deseja que te chame para trabalhar, seria o mais sensato a responder, neste caso. Mas, independente de ser músico profissional, o que significa ser bom o bastante para você? Conseguir se acompanhar tocando e cantando numa roda de amigos? Tocar musica clássica? Tocar uma música de nível técnico dificílimo? Para quê? Cada um tem um propósito. Se o seu for 'ser o melhor' em determinado instrumento, a didática mais apropriada inicialmente seria a dos Conservatórios, na minha opinião: sistemática, objetiva e pouco maleável, para que você possa alcançar, sem muita 'distração', um nível técnico tal que te satisfaça. Porém, se em determinado momento o seu vislumbramento com criação e apreciação dos significados musicais e extramusicais for maior que pela performance sugiro que comece a aprender outro(s) instrumentos. Vou explicar por quê.

Quando comecei a estudar choro percebi o quanto que, numa roda, os instrumentos se comunicam. O primeiro que notei, não à toa, foi o violão de 7 cordas. Ele fazia melodias nos bordões dialogando com a melodia principal. Fiquei maravilhado! Na época eu nem imaginava o nome, mas as "baixarias" eram como segundas melodias, quase constantes durante todo o choro. Como às vezes sobrava violonista na roda e a vontade de tocar era grande, decidi aprender o pandeiro para, na falta de um pandeirista, eu 'quebrar o galho'. Consequentemente, passei a 'perceber' melhor esse instrumento para entender o que eu deveria fazer quando eu estivesse nessa função. Notei que os pandeiristas não tocam necessariamente a mesma 'levada' do início ao fim. Eles 'brecam', eles acentuam notas e mudam a dinâmica completamente conforme a melodia ou conforme o acompanhamento, eles improvisam, enfim, dialogam o tempo todo com a música e com os músicos. É óbvio: são músicos! Não estão ali apenas para fazer a "caminha".

Assim, comecei à perceber que cada instrumento tem uma função vital na roda de choro, todos são importantes e todos se comunicam. Por isso é uma 'roda', onde todos se olham, todos se escutam, e podem até ter sotaques diferentes, mas falam a mesma língua: o Choro. Com o tempo entendi que tocar mais de um instrumento "pra quebrar o galho" é uma prática comum. Muitos violonistas tocam cavaco, muitos cavaquinistas tocam pandeiro... e por aí em diante. Os músicos se revezam, descansam e a roda pode durar horas sem ficar desinteressante. Aprender a tocar pandeiro então, passou a significar pra mim dominar suficientemente a técnica para não só manter o 'ritmo' durante toda a música (quebrando o galho), mas também ter condições de executar minimamente sua 'linguagem'.

Então, percebi que estas duas características básicas da função do pandeiro refletiram diretamente na minha performance ao violão, quando comecei a receber mais elogios pela minha mão direita. 'Eureka'! Não deve ser atoa que a mesma mão que aprendeu a 'ferir' a pele do pandeiro passou a agradar mais (modéstia à parte) no violão. Das rodas de choro (onde o pandeiro é geralmente representante solitário da percussão) pras rodas de samba, o interesse por outros instrumentos, como surdo e tamborim, foi natural e só acrescentaram na minha compreensão rítmica e concepção de música.

Todo músico que toca um instrumento melódico, já se questionou ou se questionará um dia sobre a importância de também tocar ou ter noções de um instrumento harmônico (um piano ou um violão, por exemplo). Entre os músicos mais experientes a opinião é unânime: é importantíssimo, porque uma melhor compreensão da harmonia facilita consideravelmente a performance melódica, principalmente durante uma improvisação. E o inverso? Um músico que geralmente é responsável pelo acompanhamento teria algum ganho aprendendo à tocar um instrumento essencialmente melódico? Vejamos então.

O violão é de certa forma um instrumento completo: pode-se usá-lo para acompanhar, tocar uma melodia ou até fazer as duas coisas ao mesmo tempo com certa dedicação e estudo. Mas geralmente quem toca violão "de ouvido" muito pouco pensa em notas musicais. É mais fácil (e comum) pensar em fôrmas, desenhos mecânicos da execução. Apesar de certas 'obrigações', a baixaria do violão de choro é essencialmente improvisada e obviamente de natureza melódica. Improvisar melodia só por fôrma é possível, mas demanda uma dedicação grande ao instrumento em especial e geralmente limita sua compreensão melódica àquela afinação ou ao sistema daquela família (de cordas ou de sopro). Assim a improvisação sobre uma sequência harmônica menos familiar torna-se arriscada, pois você poderia até saber que notas evitar para não soar "errado", mas de nada adiantaria, obviamente, se você não tiver velocidade de raciocínio para identificá-las 'de pronto' no seu instrumento.

Eu até arrisco, nas rodas, solar uma ou outra melodia (de cor) ao violão. Mas decidi há algum tempo me dedicar a um instrumento essencialmente melódico para ver o quanto isto acrescentaria na minha compreensão musical de maneira geral. Escolhi então a Harmônica (gaita) e, por tocar choro, havia de ser a cromática (com chave). Assim como o pandeiro, a harmônica é um instrumento de outra família (com uma mecânica completamente diferente), assumindo uma função diferente na performance (neste caso a de tocar exclusivamente a melodia). O que eu tinha de familiar? As notas musicais! O material musical eu já dominava (escalas, graus e harmonia característicos da linguagem). Eu só não tinha velocidade de raciocínio 'melódico'. Bastava então dominar a mecânica do instrumento novo. E, com respeito àquela outra expressão no início, quem estuda música nunca começa "do zero".

Desde que comecei a encarar o choro na harmônica (melodias difíceis num instrumento completamente novo) tive que dedicar todo o tempo (de estudo técnico) para este propósito. Teoricamente o violão, que ainda é meu instrumento principal, deveria sair prejudicado. No entanto, percebi uma maior desenvoltura nas minhas baixarias, sem qualquer esforço 'direto' ou seja, sem estudar violão. E só posso associar isto ao ganho significativo que tive na linguagem do choro, especificamente por hoje tocar um instrumento essencialmente melódico: a harmônica. Mas isso não quer dizer que eu não precise mais estudar violão, muito pelo contrário. Este ganho foi em compreensão musical. A técnica eu devo buscar todos os dias se possível, pois ser multi-instrumentista não é se contentar em tocar mal vários instrumentos. É ter que estudar três, quatro, cinco vezes mais ou aceitar que o caminho será mais longo até a competência técnica em todos eles.

Domínio da linguagem (por ter escutado, estudado e principalmente tocado muito choro), velocidade de raciocínio e compreensão da melodia, da harmonia, do ritmo e de todos estes parâmetros simultaneamente (pelo fato de estar familiarizado com todos estes instrumentos) são características que hoje me proporcionam boa compreensão, consciência e desenvoltura em todos os aspectos do fazer musical (Apreciação, Criação e Performance). É como se eu, através de cada instrumento, pudesse ouvir uma música com vários 'ouvidos' diferentes, dispostos em 'ângulos' diferentes. Tenho consciência de que não serei o melhor em todos estes instrumentos, pois, além de não ser mais meu objetivo desde a adolescência, eu precisaria de mais umas duas ou três encarnações no mínimo. Mas sei que como músico, de maneira geral, estou cada vez mais satisfeito.

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2 comentários:

bareta disse...

Diel,

Belo texto. Mais uma vez você toca em assuntos que merecem uma cervejinha para serem comentados. Defendo que não haja instrumentos ou instrumentistas. Há música e músicos. A música é a mais primitiva das artes. Ela prescinde de qualquer forma de cognição. A técnica e o instrumento são os meios que utilizamos para recobrar uma condição ancestral.
Estou gostando cada vez mais desse "brog". Vamo lá, vamo trocando impressões.
Abração,

Bareta.

Prof.ª Elaine Silva disse...

Olá! Gostei muito do seu post. Respondeu algumas dúvidas minhas. Queria ter a honra de bater um papo com vc sobre esse assunto . Parabéns pelo post!

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